por quê você deve torcer pelo Google no leilão dos 700 Mhz

A Comissão Federal de Comunicações, a Anatel responsável por gerenciar espectro e ditar regras de mercado de telecomunicações norte-americano, começou na última semana a leiloar as licenças para exploração da freqüência de 60 MHz do espectro dos EUA - entre elas, está o bloco C, responsável pela banda de 700 MHz.

Enquanto o Brasil engatinha na TV Digital, os EUA matarão a TV analógica, cujo sinal hoje é propagado pela freqüência de 60 MHz, em 17 de fevereiro de 2009, deixando o espectro vago. Uma das características técnicas da tecnologia são ondas de melhor propagação e menor ruído frente a obstáculos quanto mais baixa for a freqüência.

Como redes de dados telefônicos estão hoje entre os 800 MHz e os 850 MHz, faça a matemática e chegue à conclusão que a banda de 700 MHz é um pote de ouro para a transmissão de dados em uma espécie de banda larga sem fio de melhor propagação e alcance, mas não tão boa em carregar dados, que os atuais serviços 3G nos EUA.

O leilão da banda vaga atrairia tradicionalmente operadoras de telefonia interessadas em montar um serviço de transmissão de dados explorando seus benefícios técnicos ou simplesmente em sentar sobre a licença para impedir que concorrentes ameacem mudar o atual modelo de tráfego de dados sem fio nos EUA.

O interesse do Google no leilão, oficializado no final de novembro de 2007, dá conta do interesse do buscador em algo já testado, ainda em que em grau muito menor, nas redes sem fio gratuitas oferecidas na região de Mountain View - oferecer acesso (gratuito, provavelmente) nacionalmente pelos 700 MHz, já que a licença prevê penetração nos 50 estados dos EUA.

Entenda: operadoras de telefonia queimam aparelhos no mercado, seja ele o norte-americano ou o brasileiro, para atrelar usuários a planos longos em que suas redes são bastante usadasO negócio principal é a rede de dados, não os aparelhos.

Não há nada mais sagrado para uma operadora do que sua rede de telefonia. A relação entre operadoras e fabricantes de celulares segue um círculo vicioso - a segunda faz um celular que agrade o usuário e a primeira o oferece a preços irrisórios. Celular comprado, ganha a fabricantes, que vendeu mais um gadget, e a operadora, que terá serviços de telefonia garantidos por alguns meses em planos fechados.

Um caso raríssimo em que operadoras deram poder à fabricante envolve Steve Jobs e seu iPhone. Da sensacional matéria de Fred Vogelstein, da Wired, sobre os batidores do celular da Apple.

For years, carriers had charged customers and suppliers for using and selling services over their proprietary networks. By giving so much control to Jobs, Cingular risked turning its vaunted — and expensive — network into a “dumb pipe,” a mere conduit for content rather than the source of that content.
(…)
The iPhone cracked open the carrier-centric structure of the wireless industry and unlocked a host of benefits for consumers, developers, manufacturers — and potentially the carriers themselves.

A ameaça que o Google representa para as operadoras já é um ótimo motivo para você torcer por ele. Mas não pára aí. Com o lance mínimo atingido, a FCC exigirá que o ganhador, além de cobrir o país todo, deixe sua rede aberta para que equipamentos ou serviços de outros empresas pudessem acessá-la.

O IDG News Service cita analistas que consideram que o interesse do Google pode ser um blefe. Diz que quer, acompanha o processo de perto, se beneficia do leilão anônimo e, com os medo das operadoras tradicionais, sai do processo sem a exigência de gastos bilionários na construação de infra-estrutura, mas com uma rede aberta para seus serviços.

Como todo leilão, quem der o maior lance leva. Na 17º rodada, um participante anônimo (os vencedores serão conhecidos só após todas os 1.099  blocos terem sido arrematados) ofereceu US$ 4,7 bilhões. Ninguém cobriu na rodada seguinte. Ainda não terminou - lances podem ser dados até que todos os blocos tenham propostas.

Uma suposta vitória do Google seria profana - uma empresa de dados no controle de dados não veria a rede proprietária como uma forma de reaver seu caro investimento cobrando muito por conteúdo, mas liberando o tráfego até certo ponto para que outras formas de gerar dinheiro fizessem seu papel (não dá pra não lembrar do AdSense aqui).

A principal razão para você torcer pela vitória do Google é saber que, hoje, ele é uma ameaça real que pode forçar operadoras de telefonia, atualmente tão certas de si a ponto de ofereceram serviços péssimos a seus clientes, a colocarem os pés no chão.

E quem já passou horas tentando cancelar um produto ou uma linha, seja fixa ou celular, sabe bem do que estou falando.

Pra complementar, o Pedro Dória escreve sobre o mesmo assunto, enquanto um texto do Popular Mechanics (usado de base técnica para este post) elucida suas dúvidas mais tecnológicas.

1 comment so far ↓

#1 Luciano Silva on 02.04.08 at 9:54 pm

Muito interessante o texto, vou procurar saber mais sobre o assunto, mas jah estou torcendo pelo Google.

Abraco.

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