vendo blindness

“O resultado da pesquisa apenas confirmou o que eu já imaginava após a sessão. Os números não foram formidáveis. Entre as razões pelas quais mais pessoas não avaliaram o filme como excelente, os 5 primeiros itens mencionados estavam relacionadas a intensidade:

1 – Cena de estupro muito forte. 2 – Cenas de estupros muito longas. 3 – Muitas cenas de estupro. 4 – Filme muito intenso. 5 – Filme difícil de assistir.

E pensar que eu estava com medo de ter feito um filme muito limpinho… Tive que dar o braço a torcer para o pessoal da Miramax, havia mesmo passado do ponto.

Para completar a noite desastrosa no focus group, uma mulher, que havia avaliado o filme como “pobre”, fazia questão de participar ativamente do debate levantando todo tipo de problema que passava pela sua cabeça perversa e despenteada. Se o braço da minha poltrona fosse removível provavelmente teria tentado acertar aquele cucuruto grisalho de onde saía sua voz irritante:
“The sexual violence is totally gratuitous in the film”, dizia.

“Fecha essa matraca e vá pentear esse cabelo minha senhora!”, eu replicava mentalmente. “E aproveita e bota uma tintura também!”

Perdão. Me deixei levar pela emoção.”

Impressionante a transparência que Fernando Meireless aplica nos seus posts sobre a produção (agora, praticamente encerrada em nome da divulgação) do “Ensaio sobre a cegueira“.

O detalhamento que ele faz do processo de finalização do filme, com mais de 10 versões de edição do material bruto, sessões de testes com amigos e cinéfilos comuns (o que o levou à explosão contra a descabelada senhora canadense descrita acima) e a correria para cumprir datas previstas em contrato pelo mundo são um prato cheio pra quem gosta de cinema e pretende entender os passos além do glamour e das porradas de Cannes.

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