Num evento no estilo keynote internacional na Daslu (com direito a riffs famosos na entrada de executivos), o presidente do Terra pra AL, Fernando Madeira (no melhor estilo Quico que passou longe do barbeiro nesta foto) apresentou a nova capa do Terra pros presentes.
Não, não é esta aí em cima, do especial de Olimpíadas do portal (aliás, viu que o Terra virou a Globo na internet pra transmitir os jogos?), mas vai seguir mais ou menos o layout, com uma barra horizontal lá em cima substituindo a coluna esquerda, um grande naco no lado direito reservado à TV Terra (parece que vai dar pra assistir na capa os vídeos) e um destacão com imagem grande ali no centro, rodeado por menores.
Cara, não é implicância minha, mas o preview que o Madeira deu e a recente mudança do UOL (entra lá pra ver), que colocou seu título principal sobre as imagens e as chamadas mais impactantes, dão uma impressão que ambos estão mais parecidos, em layout de capa, com a Globo.com - manchetes maiores, imagens grandonas, destaques moduláveis e, no caso do UOL nem tanto, grande projeção dos vídeos na capa.
Vale lembrar, ainda que parcialmente: um ótimo blog (é, perdi o link, uma pena) tirava sarro da brutalidade das manchetes que o Terra se habituou a publicar - tipo a morte de uma atriz num bloco com o chapéu Entretenimento. Muda-se por fora, mas, por favor, dá uma melhorada por dentro também.
Nao custa dizer de novo: Abel Reis, atualmente na presidência da Agência Click, é uma das melhores (senão a melhor) fonte sobre internet no Brasil por que simplesmente dá ênfase mais ao assunto ¨Brasil¨ que ao assunto ¨internet¨.
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Quais as razões do sucesso do Orkut no Brasil? Uma das razões é do sucesso do Orkut no Brasil é, primeiro, uma bem ampla que diz respeito ao sucesso que qualquer espaço de convivência digital tem no Brasil, desde o chat.
Hoje não se fala tanto, mas chats, messengers e agora as redes sociais (até mesmo as 3D) têm características de aproximação e de propiciar uma troca de experiência, informações e memória que parecem bem compatíveis com espírito gregário que o brasileiro de uma maneira geral parece ter.
Além disto, no ambiente digital esta experiência gregária é mais ou menos protegida (covardia??) pelo avatar ou na segurança de casa ou escritório.
A segunda coisa tem a ver com a interface de uso do Orkut. Acho que a interface do Orkut tem simplicidade “quase tosca”, não tem um apuro e uma sutileza, como há na interface do Facebook, mais voltado pra quem tem cultura digital mais madura. Acho que esta interface simples do Orkut é muito propícia a novos usuários, exigindo pouco domínio prévio de interface web, como exigem Facebook ou (disparado) SecondLife. É mais simples que usar o MySpace também. Quais são os próximos passos que o Google deve tomar com o Orkut? O Orkut no Brasil não é uma ferramenta de ¨earlyadopter¨, massificou. Há uma preocupação do Google tanto no sentido de incorporar funções nascidas em ferramentas mais avançadas. Tenho minhas dúvidas se a cultura dos usuários do Orkut é sensível a estas inovações (apresentadas, principalmente, pelo Facebook).
Com certeza, algo que acho que tem potencial explosivo no Orkut é mídia. O Google tem que definir formato adequado para isto. Não será displaymedia (banner) e, se for um formato adequado e não invasivo, pode realmente fazer um grande sucesso.
Acho que, obviamente, eles não planejaram este sucesso. Temo que formatos publicitários que estejam sendo pensados sejam relativamente conservadores, do tipo banner ou gadgets patrocinados - são conservadores por não valorizar o potencial de conectividade que o Orkut traz.
Para mim, é simpática a idéia de desenvolver um programa de incentivo à propagação dentro do Orkut em que você premie os agentes propagadores pela performance da atividade. Ao invés de pensar no Orkut como veículo, pensar na própria audiência do Orkut como veículo.
Vejo os líderes em redes sociais como próxima forma de publicidade (na mídia social). Procurando a reputação dos líderes dentro dos grupos e alavancar exposição da sua mensagem publicitária através deles, isto tem um poder enorme. Acredito muito nisto, de ter modelo de influência nas redes para que elas possam retornar aquilo que você espera - audiência, decisão de compra, etc.. Inevitavelmente, isto misturaria conteúdo e publicidade.
Com esta idéia em franco renascimento, o estilo ¨Milton Neves¨ é o futuro? A mídia é uma frente muito promissora em várias formas. Esta cadeia de relações entre produtos de conteúdo, agência e anunciantes tá se reinventando. É inevitável que, dentro de redesociais, conteúdo seja inevitável para alavancar marca, mas não no modelo broadcast. É um tipo de mídia sensível a conteúdo e articulada dentro da própria rede por meio dos líderes é promissor. O Orkut já está inatingível para o MySpace Brasil? Como fica o Facebook na briga? Em termos de massa de audiência, sim. Acontece que a estratégia do MySpace, acertada por ser segmentada, pode não migrar, mas duplicar audiência. Você terá página do Orkut para amigos da escola, mas terá um perfil no MySpace para encontrar outras tribos, pra encontrar as bandas que você gosta. A fragmentação é inevitável. Acho improvável que o MySpace desbanque o Orkut.
Acho que é uma fraqueza do Facebook (no Brasil) ter interface inodora e incolor, já que os brasileiros gostam de coisas de gosto duvidoso e um pouco eletrizante (nota do blogueiro: leia-segifs e animações que causam epilepsia), coisa que você encontra em blogs e comunidades no Brasil. MySpace e Orkut podem entregar isto, mas Facebook não. Os componentes utilitários no Facebook compõem um estágio um pouco mais avançado da cultura web, do sentido mais experimentado.
A cultura do Orkut é compartilhamento, reencontro, entretenimento. Já o Facebook claramente tem este posicionamento de ¨earlyadopter¨ e elite no Brasil. (Para massificação no Brasil) acho-o fraco, já que o Facebook tem muita dispersão - o Orkut vai direto ao ponto.
O fator ¨timing¨ do Orkut no Brasil foi importante? Não acho que ser o primeiro entrante seja bom. Historicamente na internet, isto não é garantia - pense no ICQ. É claro que ser o primeiro é bom, mas garante muito pouco na vida real da web. A demora de você encontrar um competidor no Brasil que tivesse alguma projeção neste sentido é mais importante. É evidente que isto o colocou primeiro na vitrine, mas isto não explica por que as pessoas pegaram da vitrine. Não acho decisivo.
Os players internacionais nunca deram muita bola para mercado nacional. Já os grandes players nacionais tão aí e foram UOL, Terra e iG que perceberam e tiraram todo o valor que o mercado tem pra dar.
O brasileiro tem avidez pelo compartilhamento e pela interação, mas também tem algo confessional: ele tem um estilo um pouco de dizer o que pensa, confessar-se, que é muito favorável, aderente às características das redes sociais. Não é a toa que os reality shows fazem sucesso no Brasil. Pessoas realmente gostam de falar de si e bisbilhotar a vida alheia - e o Orkut é prato cheio para isto. O brasileiro médio tem esta atitude um pouco confessional, o que pegou os players internacionais de surpresa.
Devo confessar que muito me assusta o ímpeto dos que acreditam que o Google replica no Brasil todo seu potencial de inovação e assustadora competência internacional. Isto quer dizer que a operação nacional do Google é desprezível? Muito longe disto e sobram exemplos para contradizer a tese: a ótima adaptação do Google Maps para o mercado nacional, feito totalmente nos laboratórios do buscador em Belo Horizonte, é, provavelmente, a melhor delas.
Há um boato, não comprovado como todos os boatos, que engenheiros brasileiros, locados também em BH, são os únicos com permissão para mexer no PageRank, o algoritmo de busca e galinha dos ovos de ouro do Google, fora da sede da empresa, na Califórnia.
A assinatura do Termo de Ajustamento de Condura (TAC) entre Google Brasil e Ministério Público Federal de São Paulo, feito no começo de julho, tem muitos percalços longe da credibilidade que o brasileiros atestam ao buscador criado por Sergey Brin e Larry Page e algumas conseqüências muito boas para a segurança digital dos brasileiros.
A crescente pressão nas relações entre Google Brasil e MPF no decorrer destes quase dois anos em que a fiscalização no Orkut começou a se fazer necessária transformou deu contornos de literatura (barata) ao caso, com dois antagonistas que misturam desprezo pela frase alheia com orgulho por seus últimos passos.
Sejamos mais claros quanto a fatos. Em fevereiro de 2006, a ONG baiana SaferNet encaminhou ao MPF relatório denunciando a existência de conteúdos considerados criminosos, como pornografia infantil, incitação ao ódio, venda de remédios controlados e tráfico de drogas, dentro do Orkut, o que fez com que o MPF intimasse o presidente do Google Brasil, Alexandre Hohagen. Apenas de pornografia infantil, eram mais de 1,2 mil comunidades, aponta o documento.
Começa aí o calvário. Na primeira etapa do processo legal, o Google Brasil adotou uma postura altamente questionável: o responsável pelo Orkut não era o braço brasileiro, mas sim a matriz do buscador, identificada como Google Inc. em esclarecimentos públicos.
Por mais absurdo que soasse, o argumento tinha como razão um impedimento jurídico. Enquanto o MPF exigia provas dos crimes praticados para encaminhar à Justiça um pedido de quebra de sigilo, a legislação dos Estados Unidos, onde estão os servidores responsáveis por armazenar os dados criados e trafegados no Orkut, força a exclusão de imagens de pornografia infantil no ato de suas descobertas.
No impasse, o Google Brasil resolveu lavar as mãos, prometendo “repassar as denúncias à matriz“. Acrescente um agravante: o advogado contrato pelo buscador para lidar com a imprensa, Durval Noronha, que tem um escritório de advocacia homônimo, se notabilizou pelos decibéis que atingia quando conversava com a mídia.
Dezoito meses depois, Noronha continua conhecido no meio pelos gritos que dava com jornalistas como se a potência do seu gogó contornasse a falta de um argumento cabível para que o Google Brasil não combatesse os crimes dentro do Orkut. Descobriu-se mais tarde que Noronha foi responsável por defender o traficante norte-americano William Reed Elswick, refugiado no Brasil e ajudado por Edmar Cid Ferreira.
No primeiro turning point da história, a tensão no caso atinge o ápice em agosto, quando o MPF pede à Justiça o fechamento do Google Brasil, alegando seguidos descumprimentos de ordens judiciais que exigiam a quebra de sigilo de dezenas de usuários suspeitos de crimes.
“É uma questão de soberania do Estado brasileiro. Uma empresa que se instala no País, sob as leis brasileiras, tem o dever de atender às solicitações da Justiça”, afirmou o procurador da República Sérgio Suiama, na época. Ironicamente, o aparente desinteresse do Google Brasil junto à truculência de Noronha alçaram MPF e SaferNet ao posto de defensores dos interesses nacionais frente à multinacional estrangeira. Os personagens da novela estavam a postos.
O antagonismo se manteve sem muitas mudanças no ano seguinte, quando, em um mal explicado teste, o Google Brasil retirou a publicidade integrada ao Orkut, demitiu Noronha e, alegando crescimento do escritório nacional (balela), anunciou uma divisão dentro do Google Brasil para lidar com pedidos da Justiça. Nos bastidores, negociações com Ministério Públicos Estaduais e Federais de 5 Estados (Minas Gerais, Ceará, Pernambuco, Acre e Rio de Janeiro) avançavam a passo de lesma.
Aí vem o segundo turning point. Com a criação da CPI da Pedofilia, Hohagen é intimado a depor no Senado após ignorar o primeiro convite do comissão, presidida pelo senador Magno Malta (PR-ES), que já teve seu nome envolvido no escândalo das Sanguessuas. Pressionado, o Google Brasil contratou o ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, para elaborar sua estratégia de defesa. No começo de abril, Hohagen falta a confraternização de funcionários do Google no México para depor à CPI e prometeu “limpar o Orkut“.
Em julho, o Google Brasil anuncia que cumprirá suas promessas, instalando filtros para impedir a publicação de imagens de pornografia infantil e criando um canal de comunicação com o MPF que permitirá que as denúncias cheguem ao buscador, que quebrará o sigilo dos usuários apontados e enviará informações pessoais, como IP, para a Justiça. Há ainda, soluções pontuais, como a distribuição de cartilhas de educação digital a crianças e reuniões com autoridades para avaliar os avanços no combate à pedofilia.
No meio do caminho, um funcionário da ArkoAdvice, consultoria contratada pelo Google Brasil, é preso lendo documentos sigilosos que apenas membros da CPI poderiam ter acesso, como nomes de crianças que sofreram abuso sexual e foram intimidas a depor. A consultoria não gosta do termo “lobista” empregado (com propriedade) pelo IDG Now! e, em contato com este colunista, mente ao afirmar que seu funcionário não viu nada demais.
A notícia expõe o Google Brasil a uma situação delicada no mesmo dia em que Hohagen é novamente chamado para o Senado, o que faz com que o buscador encerre o contrato que tem com a ArkoAdvice, no segundo prestador de serviços demitido em pouco menos de dois anos.
A assinatura do TAC coloca, finalmente, um fim à petulância que o Google Brasil demonstrava no início e dá espaço para que tanto MPF como SaferNet gastem tempo atrás dos outros 10% de pedofilia na internet brasileira que não tem relação com o Orkut.
O próximo alvo, admite Suiama, são serviços de e-mail gratuitos, que podem servir como repositórios online de pornografia infantil, como o Hotmail, da Microsoft, ou o Gmail, do próprio Google. Há indícios de aliciamento de crianças por softwares de mensagens, como o MSN Messenger, mas o MPF admite ser muito difícil fazer qualquer tipo de monitoramento.
O que mudou no antagonismo entre MPF e Google Brasil? A pergunta suscita respostas que pendem para o lado escolhido.
O Google Brasil se diz aliviado por ter chegado a um acordo em que seus funcionários responsáveis por avaliar se as denúncias de pornografia infantil realmente o são não seriam enquadrados pela legislação brasileira, que prevê o envio do conteúdo como crime, mas não seu armazenamento. O MPF segue um discurso pontuado por “finalmentes” e palavras que seguem o caminho de um império que se curvou às regras regionais do país.
Em quem acreditar? Na imaturidade geral, fique com seu raciocínio. Melhor não dar atenção a uma rixa que envolve mais os próprios nomes que a razão primordial da lambança: a segurança dos brasileiros na internet.
De volta à proposta original deste Chá, segue a primeira de uma tonelada de entrevistas feitas pra matéroa sobre as razões do sucesso do Orkut no Brasil (¨pra quê fazer se é tão óbvio?¨. ué, é mesmo?) que rolou no Now! nesta semana.
A primeira entrevista fica com Rogério de Paula, antropólogo da Intel Brasil. Note que as perguntas foram adaptadas e o texto, digitado a partir de uma conversa telefônica, foi editado para ter um mínimo de sentido e organização.
Em negrito e itálico, anotações deste repórter feitas durante a edição para posterior conferência caso fosse necessária à matéria.
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Quando ouviu pela primeira vez do Orkut? Parte da minha pesquisa (levada para a Intel Brasil) começou no doutorado com tecnologias para redes sociais, desenvolvida antes mesmo do Orkut nascer. O Orkut apareceu numa comunidade bem pequena que tava ao redor da BayArea, onde está o próprio Google.
Como eu estava naquela comunidade, recebi um convite. A idéia era uma rede fechada atrair um certo grupo de pessoas e você espera que alguém que você conheça te convide. Comecei a ver este crescimento pra América Latina e Brasil (como?).
Ao mesmo tempo, quando começou a criar massa crítica no Brasil, motivava uma certa competição com os EUA. Acho que foi 23 de junho de 2004 (o dia em que o número de brasileiros passou o de norte-americanos). Foi a primeira vez na web brasileira que havia um site norte-americano com mais brasileiros. Era uma noção não de patriotismo, mas de nacionalidade. como a DanahBoy (pesquisadora de redes sociais em Berkeley) escreveu.
A estrutura do Orkut tem a ver com algum traço da cultura brasileira? (O Orkut) se integrou muito bem com as práticas culturais dos brasileiros, de querer se relacionar com as pessoas e querer interagir. Ele se tornou muitas ferramentas. Quando estava nos EUA, ele era basicamente uma ferramenta para conectar pessoas conhecidas e em nível profissional. No Brasil, ele virou quase um calendário pessoal, pra saber os aniversários dos amigos.
O Orkut fez sucesso por ser o primeiro a chegar no Brasil, convergindo a cultura brasileira em buscar a integração entre pessoas. Ao invés de replicar o mundo físico, ele foi instrumento de suporte para que pessoas interagissem facilmente.
Com certeza, ele reflete muito a questão do brasileiro no número de amizades. Então virou um jogo quantas pessoas se tem na rede, algo de valor, embora isto seja algo que não se trabalhe facilmente no dia a dia, já que não dá pra representar. (Esta representação) emergiu muito no Orkut e não era tão importante lá fora. O Orkut corre risco no Brasil? Como o brasileiro já tinha uma certa dominação no Orkut, mudar a prática era muito mais complicado. O MySpace começou num nicho diferente, dentro de universidades, o que levou a representar interesses dos estudantes norte-americanos.
Acho especial como ele se transformou sem ter muitas mudanças na tecnologia. Existem questões interessantes surgindo, como a interface aberta, como as empresas criarão novos produtos, como haverá a exploração por mobilidade. Quando os gadgets móveis entrarem no mercado, vai ser interessante ver como serão integrados às redes sociais. A questão geográfica vai ser bastante interessante - o lugar onde você estiver vai contar muito pras coisas que você fará. Como a mídia trabalhou o aparecimento do Orkut? Pra mim, foi a questão da curiosidade. Você tem um site fechado e todo mundo quer fazer parte. As pessoas ficaram curiosas. Como era o primeiro que chegava no Brasil, elas queriam se tornar exclusivas.
A própria mídia reinforçou o Orkut, a partir do momento em que ele se tornou parte. De um lado, a mídia tornou a (penetração) mais aparente, aumentou a curiosidade da população, que não seria atingida pela rede social. Ao mesmo tempo, ela reinforçou a questão da competição e da identidade do brasileiro.
Grande (enorme, na bem da verdade) parte do mérito vem do Aloizio Mercadane (PT-SP), presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), que, numa atitude não muito comum, pediu para ser relator do projeto que por ali tramitava. Fraom 23 emendas sugeridas - 11, no final das contas, passaram.
As mudanças introduzidas no texto por Mercadante combatem o principal mal do PLS 76/2000 desde que começou a correr pelos corredores do Senado - a vagueza de muitas definições. No documento em que explica cada uma das 11 emendas aprovadas (disponível neste Chá), é fácil ver que a justificativa mais comum de Mercadante é dar maior precisão à lei.
Não entremos ainda no mérito da lei caber na realidade digital brasileira, mas na tramitação do projeto. De acompanhar o andamento da primeira versão até a mais recente, fica-se claro que o que antes era uma aberração jurídica (a expressão é de fonte da matéria do Now!) se tornou muito mais tolerável e, em alguns trechos, pertinente.
É por isto que, na discussão iniciada com o reinício do buxixo, há cerca de duas semanas, o post que mais gosto sobre o assunto é do Gravatai Merengue no seu Imprensa Marrom, elogiando o projeto após as alterações de Mercadante.
Ainda que não concorde totalmente com os argumentos de Merengue, seu post traz a discussão pública novamente para onde não deveria ter saído - a factual, fruto de análise, um mínimo de conhecimento jurídico e bom senso, e não a ideológica, tão impregnada desde que o PLS 76/2000 ganhou de novos os holofotes.
Não concordo totalmente com Merengue, ainda que admire sua argumentação, simplesmente por que ele se restringe à interpretação mais provável que juízes penais (o projeto, vale lembrar, não é cível) podem (ou devem) dar ao texto da lei.
Há, porém, as exceções de entendimento e isto não é exclusivo de uma lei sobre internet, que deverá (eu acredito piamente nisto) enfrentar muitos magistrados despreparados. É da natureza de qualquer outro pedaço de legislação que caia nas mãos de algum profissional do setor não preparado o suficiente para uma decisão sensata.
É papel da imprensa, vejo eu, trazer à tona estas possíveis interpretações que, mesmo que improváveis, são factualmente possíveis, apoiada pelo background jurídico de pessoas que dominem as leis o suficiente para apontar possíveis entendimentos que podem ser dados em casos extremos.
Os comentários do post de Merengue explicitam o quão ideológica (e desprendida da realidade em alguns pontos) a discussão se tornou.
Fala-se exageradamente de uma suposta possibilidade de prisão pelo desbloqueio do iPhone, sem se atentar para o fato de que a Anatel não permite mais a venda de celulares bloqueados no Brasil ou que a legislação brasileira se aplica apenas a serviços ou produtos disponíveis oficialmente no mercado. E o iPhone, até setembro, não está.
Outra coisa: o entendimento da 285B como passível de enquadrar quem baixa arquivos no P2P ou torrent sem pagar direitos autorais é rejeitada por Mercadante em FAQ publicado na Agência Senado, mas tem brechas que, como explica Ronaldo Lemos, podem encriminar quem não respeita direitos autorais.
Problema é que a discussão vai para o caminho onde, teoricamente, baixar conteúdo protegido por copyright em redes P2P ou torrent seria criminalizada pela primeira vez, quando, na real, o Código Penal já prevê punição (multa, grana, cash) para quem desrespeita no artigo 105 da lei número 9.610/98, ué.
O post de Merengue é essencial à discussão não por sua posição, mas por trazer de volta à roda a análise factual, crítica, de quem vai se informar antes de embarcar no que um grupo grita.
Dito isto, vamos ao entendimento pessoal deste blogueiro, após horas mergulhado nas versões da lei.
As mudanças de Mercadante tornam o PLS 76/2000 mais preciso, mas ainda passível de interpretações extremamente perigosas.
O 285A não prevê mais punir a absurda situação de quem pega seu celular emprestado para fazer uma ligação, mas pode abrir o precedente das fabricantes de DVD processarem você ou seu técnico por seu aparelho não respeitar apenas a região 4, do Brasil. Até mesmo fabricantes de videogames (apenas a Microsoft, no caso do mercado brasileiro de consoles) pela capacidade dos aparehso reproduzirem os tão populares games piratas entre jogadores.
O 285B se aproximou mais da situação de posse desautorizada de dados (tipo invasão de celulares ou perfis em redes sociais), mas ainda apresenta uma vagueza que pode, teoricamente, punir usuários de P2P - Mercadante diz que os ¨legítimo titular da rede de computadores¨ em um Kazaa da vida seriam quem oferece e quem baixa os arquivos e, como ambos concordam com aquilo, não há crime.
Eu não colocaria minha mão no fogo, na real. O titular da rede pode ser entendido facilmente como seu provedor de acesso e a ¨violação de segurança¨ poderiam dizer respeito às regras de direito autoral que protegem determinado conteúdo. Traduzindo: continua um bocado nebuloso ainda.
O principal problema, porém, está no inciso III do artigo 22, o que daria status de ¨dedo-duro¨ ao provedor.
III – informar, de maneira sigilosa, à autoridade competente, denúncia que tenha recebido e que contenha indícios da prática de crime sujeito a acionamento penal público incondicionado, cuja perpetração haja ocorrido no âmbito da rede de computadores sob sua responsabilidade.
A lei, antes restrita a atividades de pedofilia, foi estendida para outras atividades e pode se transformar numa ferramenta de vigilância que ainda não está claro - nem Mercadante nem Azeredo definem quais são os ¨crimes sujeito a acionamento penal público incondicionado¨. O perigo aqui é realmente iminente, até que se saiba exatamente quais são as situações previstas de punição no artigo.
Os 3 grandes perigos moram aí. Caso aprovada, a lei exigirá algumas adaptações - muitos sites de publicação de conteúdo (tipo o Now!) terão que deixar bem claro que a cópia de conteúdo, com a devida referência, é totalmente liberada, para que não haja a menor possibilidade da ¨expressa restrição de acesso¨ ser levada aos tribunais.
Este blog reitera: MUITO CUIDADO com o quê você lê. A desconfiança que leva a consultar várias fontes da Mídia Estabelecida vale também para Nova Mídia. Para se informar sobre o assunto, algumas sugestões de leitura, além do já citado Gravataí.
Se, depois de ler, ponderar, raciocinar e formar sua opinião, você ainda se ache compelido a assinar a petição online contra o projeto, assine. Eu assinarei, não por concordar com muitos dos argumentos (olha o alarmismo e o palanque aí de novo), mas por ver os riscos que mesmo o novo texto traz.
Na prática, a petição pode dar atenção às dezenas de milhares de insatisfeitos de maneira que muitos deputados sejam pressionados a analisar o projeto ou simplesmente se desvincilhar dele para não queimar o filme em pleno ano eleitoral - não custa lembrar que, nas passagem pelo Senado, o projetosaiu da pauta quando a pressão pública aumentou.
O Yahoo tá bolando um projeto com blogs brasileiros, já meio testado durante a Campus Party por meio do Flickr (esta foto minha explodiu o acesso por causa disto).
A parada chamda Yahoo Posts e tem cerca de 80 blogs brasileiros já acertados que entrarão com conteúdo - pelo menos para os blogs com os quais este Chá conversou, não haverá qualquer troca financeira.
Os blogueiros entram com o conteúdo e o Yahoo entra com seu tráfego a partir de julho, prometem os executivos do Yahoo Brasil.
Algumas palavras rápidas sobre a histeria que ronda o PLS 00076/2000, conhecido popularmente como projeto de crimes digitais o senador Azeredo.
O primeiro motivo pra se discordar (sem citar o absurdo das possibilidades de crimes previstas, motivo de matéria que o Now! sobe na sexta - fica esperto) é a apelação direto à instância penal, e não cívil, da Justiça.
Ao invés de criar uma regulamentação que pusesse em cheque o patrimônio dos potenciais réus, como indica o bom-senso jurídico, Azeredo resolveu partir para o penal, algo que Ronaldo Lemos bem define como a última instância caso punições mais brandas não surtem efeito - multa não deu certo? Bota na cadeia.
Com o PLS 00076/2000, não temos possibilidade deum julgamento que use bens patrimoniais (tipo grana ou multa) para tentar regularizar alguns dos poucos crimes digitais ainda não previstos pela atual legiuslação brasileira - é cadeia na certa.
O segundo motivo para discordar é a real possibilidade de aprovação - pessoas de confiança ouvidas pelo IDG Now! apostam que a pauta vai para a Câmara dos Deputados (que só pode vetar, não alterar) com mínima possibilidade de reprovação - a possibilidade de Lula rejeitar totalmente o projeto é ainda mais remota.
Até o fim de semana, alterne o Now! com este blog por uma cobertura mais completa - alguém há de pagar o salário deste blogueiro, pois bem.